05.10.2026

Dona Raquel presente! - 107 anos de Raquel Correia de Crasto

No 3 de outubro de 2026, Dona Raquel completaria 107 anos, e registramos aqui a sua importância para a existência do Instituto Capibaribe, por sua incansável presença junto ao professor Paulo Freire, concretizando a proposta desta escola tão pequena em valor material e tão grande como espaço de formação de cidadãs e cidadãos, comprometidos com o sentido de humanidade e com a construção de uma sociedade democrática.

Dona Raquel presente!
Presente na forma de ensinar, que reconhece cada estudante como sujeito de sua própria história. Presente na escuta atenta, no olhar cuidadoso e na certeza de que educar também é criar espaços para perguntar, experimentar e descobrir.
Presente no brincar das crianças, na curiosidade que movimenta os pátios, nas rodas de conversa, nas histórias compartilhadas e em cada experiência que transforma o cotidiano em possibilidade de aprendizagem.
Presente na escola que valoriza a convivência, o afeto, a autonomia e a relação com o mundo. Na escola que olha para a cidade, para a natureza, para a cultura e para as pessoas como partes inseparáveis da educação.
Dona Raquel está presente também nas memórias que construímos, nas escolhas que fazemos todos os dias e nos princípios que continuam orientando o Instituto Capibaribe.
Porque algumas pessoas não ficam apenas na história: elas continuam fazendo parte dela.
Hoje, a comunidade Capibaribe celebra sua vida e agradece por tudo o que nasceu de sua coragem de imaginar e construir uma escola diferente.

Feliz aniversário, Dona Raquel!
Que bom ter você sempre presente entre nós.




Simplesmente Raquel, por Dulce Campos
Simplesmente Raquel, assim era conhecida a professora da rede pública de ensino e uma
das fundadoras do Instituto Capibaribe.
Bem humorada, aqui e acolá escondia um riso de tranqüilidade diante das surpresas mescladas do trágico e do cômico da vida infantil. Nada das crianças a escandalizava: nem os palavrões, nem as atitudes tidas como desrespeitosas, nem as agressões físicas de que algumas vezes foi vítima ao tentar conter os excessos de alguns. Enfrentava as "feras" sem perder a firmeza, a serenidade, o humor, entremeando sua atitude com palavras encorajadoras para reflexão. Exclamava "virgem!.." nas situações de aparente desastre, esboçando riso. Tudo para Raquel era natural nas crianças, os adultos sempre considerados responsáveis pelos deslizes infantis. Cheia de convicção e livre de fanatismo, não abria mão da fé católica, professando-a na transmissão da doutrina e na prática, qualquer que fosse o credo da família, assegurando o direito das crianças à educação religiosa sem apelações.
Acolhia gregos e troianos dos movimentos políticos e ideológicos, com o coração aberto para verdes e vermelhos da época conturbada, no tempo em que o Capibaribe concentrava no alunado os extremos das classes conservadoras e revolucionárias da cidade.
Pobres ou abastados, a todos facultava, sem reservas, o mesmo lanche, o mesmo cuidado, a mesma atenção, o mesmo lugar nas reuniões de famílias e de educadores, o mesmo diálogo com a escola.
Raquel integrou a primeira equipe de orientadores educacionais da rede oficial do Estado, atuando no Instituto de Educação, de onde se aposentou em condições mais dignas de remuneração. Também fez parte da equipe fundadora da Escolinha de Arte do Recife. (...)
A quietude de Raquel, inabalável. A palavra, o gesto, o olhar, o silêncio, tudo e toda nos valores. Nas diferenças... Olhos no céu, pisando na terra, assim viveu Raquel, a professora de todos. Atenta! Nas reuniões, lá atrás, no fundo do terraço, escutando, anotando, verificando, vigiando, calada. No pátio, nas salas de aula, no quintal, presente. Na biblioteca, na secretaria, no portão... Sempre ali. Morando na casa vizinha, vigiando dia e noite. Suave no diálogo com as crianças, firme na cobrança da responsabilidade das famílias. Raquel em todos os lugares. Ainda
Raquel em toda parte...
Dulce Campos
Psicóloga e professora da UFPE e FAFIRE
Mãe de aluno do IC, de 1961 até 1970.